delirium+destiny+death+dream+d;;;


12/01/2005 03:54


20 anos.

Pudera eu ser atemporal. Não sei em qual sentido emprego essa palavra. Mas se tem algo que me incomoda é ver tudo passar. Uns passaram e eu não dei a mínima. Eu também passei por muitos sem que eles nunca olhassem para trás.
Eu estava num grande mercado na minha grande cidade. Lembrei do empacotador andrógino que parecia o David Bowie. Esguio, ruivo, olhar lânguido, calças apertadas. É, ele não parecia o Bowie. Ele era alto e foi espancado. Eu o conheci e ele tinha uma vida. Mas eu não sei o que ele fez dela.
Eu queria manter presente a época em que conheci diversas pessoas. Queria manter aquelas pessoas que passaram meio que pincelando cada pedaço do rascunho da minha vida.
Pudera eu ser atemporal. Não sentir o mundo mudar, as crianças brincando em lanhouses, as meninas menstruando ainda crianças, o ar carregado de sujeira e mesquinharia, a quantidade de revistas que abarrotam as bancas, os livros infinitos, os grandes escritores cada vez mais distantes.
Minha gata preta cresceu e eu tomei forma. As pessoas envelhecem, eu sei. Mas não consigo parar. Parar de pensar no passado. E quanto mais eu penso mais envelheço.
As pessoas que conheci mudaram ou se mudaram. Não conheço mais ninguém na cidade. Somente as velhas senhoras da vizinhança permanecem.
E se eu começasse novamente sei que não acertaria porque já curti o momento certo. Mas nada nunca muda. Tudo vai passando como as imagens borradas em janelas de metrô.
E eu tenho 20 anos.

“There are twenty years to go.
A golden age I know.
But all will pass, will end too fast, you know.
That’s the best and that’s the test in it. You’re the truth not I.”

PLACEBO in TWENTY YEARS

enviada por Kitty Lecter






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